INSPIRAR E SER UMA INSPIRAÇÃO

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Nesta edição do Journal, entramos no lugar onde a coleção começa antes de ganhar toque: o Departamento de Design. À luz de SYNAPTIC (SS27), esta edição assinala a estreia da Designer Têxtil Joseane Oliveira na Trimalhas e lança um convite à reconexão num mundo saturado, onde a malha deixa de ser apenas superfície para se afirmar como uma interface viva. Conversámos com a Designer sobre visão, processo e detalhe. Entre tendência e intemporalidade, inovação e saber-fazer, a entrevista revela como se desenham estruturas que acolhem, respiram e elevam o quotidiano com consciência.

A ENTREVISTA

Ao entrares na Trimalhas, qual foi o primeiro “sinal” que te fez perceber o ADN da casa?

Como designer, já conhecia a Trimalhas e outras empresas do setor, o que me permitiu formar uma perceção da identidade e “personalidade” de cada uma. Via a Trimalhas como uma empresa vanguardista, não só no desenvolvimento de produto, mas também na forma como se posiciona e comunica, e que naturalmente surgia como referência, quando pensava em estruturas mais ousadas. Ao integrar a equipa, confirmei essa perceção. Um sinal desse ADN é a dimensão das coleções: não são excessivas. O foco não é desenvolver por desenvolver, mas criar produtos com direção, identidade, qualidade e consciência. Cada malha tem intenção e propósito, e o objetivo não é ser “mais do mesmo”, mas ser verdadeiramente diferente, sustentado por elevada exigência e uma régua de qualidade bem definida.

 

Para ti, o que separa uma malha “boa” de uma malha realmente “premium”, e de uma malha “luxo”?

Uma boa malha, para mim, é o básico bem feito: um jersey com boa recuperação, uma felpa americana com uma argola bonita, um Interlock liso bem acabado. São artigos que poderíamos desenvolver quase “de olhos fechados” e que sabemos que terão procura, porque são, de fato, bons.
A malha premium vejo como um produto distinto, seja pela fibra, pelo fio, pela estrutura ou acabamento. Exige um trabalho técnico maior. Por isso, o premium não é inalcançável: é diferente, é excelente, mas é tangível. Muitas vezes, o premium já foi luxo. O luxo é o objetivo final. Falamos aqui de malhas com elevado valor acrescentado, que partem do desenvolvimento de algo inovador, diferente: estruturas complexas, fios diferenciados e acabamentos inovadores. Ser uma referência no desenvolvimento de malhas para o mercado de luxo significa, antes de tudo, fazer bem todas as outras etapas. A base é a chave de tudo.

 

Podes levar-nos pelo teu processo: do primeiro insight à amostra final aprovada?

Como criativa, o meu primeiro insight é observar o que o mundo tem vivido. A sociedade funciona como um pêndulo: o que foi um dia, voltará a ser. Se conseguirmos ler esses movimentos e aplicá-los ao desenvolvimento de produto e aos negócios, estaremos um passo à frente. De maneira concreta: observar conceitos e comportamentos e questionar o que as pessoas vão vestir ou comprar. Em um exercício diário.
O segundo insight vem quase sempre um caminho inverso: penso primeiro no produto final, que peças ou modelos podem ser desenvolvidos e para que marcas e segmentos, depois nas malhas que possam atender a essas necessidades, de forma transversal ao mercado e, idealmente, intemporal. Será um Jersey, um Interlock? Qual a gramagem, toque e aspeto? Com essa base, vemos se a malha é reproduzível, e em equipa selecionamos o fio, a estrutura, o tear mais adequado e rentável, o acabamento ideal. É um trabalho colaborativo, em que cada pessoa tem a sua expertise, e é essa colaboração que transforma a ideia em produto. Todos são parte viva desta jornada. Uma malha nasce de uma ideia, mas só se concretiza através do trabalho de todos, do fio ao planeamento, da tricotagem ao acabamento, da revista aos testes finais, da preparação dos hangers aos armazéns, até à equipa financeira e comercial. É uma verdadeira jornada de transformação, em que o resultado final muitas vezes difere do que vemos ao cair do tear.

 

Como transformas tendências em linguagem Trimalhas: aquilo que fica para lá da estação?

enso que, cada vez mais, as coleções devem ser pensadas além da sazonalidade. O inverno mistura-se com o verão e as estações já não são tão definidas. Transpor tendências neste contexto de mudança de mercado leva-nos, de forma quase natural, ao caminho do intemporal. As tendências são muitas e preciso observar macro e microtendências, interpretá-las e trazê-las para a nossa realidade, considerando as nossas capacidades humanas e fabris, os nossos clientes e aquilo que queremos projetar. Por isso, cada tendência acaba por ganhar a linguagem Trimalhas, a partir do momento que mantemos consistência com os nossos valores: criar malhas irreverentes, com qualidade e feitas para durar. No fim cada tendência é sempre interpretada de acordo com o nosso ADN.

 

O que observaram no mundo (e no consumidor) que vos levou a desenhar a coleção SYNAPTIC como uma reconexão; e não apenas como estética?

Sinto que o mundo está cada vez mais saturado de informação e tendências. Claro que faço esta observação, com a consciência de que o mundo é vasto e que existem realidades onde esse excesso ainda não chegou. Mas, de uma forma geral, a globalização tornou-nos hiperconectados, em um ritmo acelerado de sobreposição de informações. Synaptic surge como um convite à reconexão: pensar antes de reagir ou comprar, refletir antes de responder, viver cada momento de forma consciente e permitir que as experiências fluam naturalmente. Depois de Turmoil, que retratava a comoção e o distúrbio que impulsionam a criatividade, vem a calmaria, o desejo de nos reconectarmos com a nossa vida, com os momentos do dia, com o ambiente e com a forma como consumimos. Vestir é parte natural desta jornada diária, e é fundamental sentirmos conforto, físico e mental. É aqui que a malha assume o papel de protagonista: não apenas como elemento estético, mas como algo que nos reconecta com o nosso gosto pessoal, torna-nos mais conscientes das escolhas e o nosso quotidiano mais agradável.

 

A coleção sugere três territórios: INNERFACE / REWILDING / SYMBIOTIC. Como traduzes cada um destes eixos em decisões concretas?

Cada conceito tem a sua ideia principal, mas todos se conectam a um tema central. Em Innerface, exploramos aquilo que não é imediatamente visível. Brincamos com direito e avesso, fios que não se veem, acabamentos que apenas se sentem e que tornam a malha especial: temos Duplas faces vanizadas como a California 201, ou Interlock Pique mercerizado, como o Aurea 100; Temos riscas verticais em cor e estrutura, como na Duna 100. Rewilding propõe explorar novas possibilidades. O ponto de partida é: o que já existe e pode ser melhorado? Trabalhamos com fibras naturais, regeneradas e recicladas, valorizando irregularidades como fios flamé, mélanges, bouclés e open ends. Malhas com relevo, canelados, riscas, espinhas e argolas diferenciadas. Exemplos: Pointelle 101 um Rib jacquard 100% algodão orgânico com estrutura canelada e pontos aerados, ou Origen 100, em algodão orgânico e poliéster reciclado com riscas horizontais em fio bouclé. O conceito Symbiotic é o coração da coleção. Conecta natureza e tecnologia, corpo e malha, fio e estrutura, acabamento e sensação. Os dois conceitos anteriores inspiram, mas é o Symbiotic que dá coesão e nome à coleção. Malhas como a Sleek 100, Pique algodão/seda com toque macio e caimento que abraça o corpo, ou a Lunor 201, Jersey de linho/algodão em riscas, combinando conforto, estética premium e versatilidade, traduzem na prática o ADN desta coleção.

 

Fala-se em jornadas do repouso ao movimento, do íntimo ao coletivo, com foco em versatilidade. Que estratégias de design usam para garantir essa adaptabilidade sem perder sofisticação?

Utilizamos estruturas e acabamentos que acima de tudo proporcionem conforto. Malhas que vestem sem pesar o corpo, como a Amber 100, Pique 100% poliamida reciclada com acabamento antibacteriano, cujo caimento e toque nos fazem questionar: será o fio, a estrutura ou o acabamento? Ou a Active 100, Jersey com toque frio, a Padel 100, um Pique de Lyocell/algodão, que mesmo sem acabamento funcional, oferece conforto e versatilidade, vai de uma malha casual ao desporto, refletindo a jornada do repouso ao movimento. O objetivo não é a performance extrema, reservamos isso para malhas muito específicas, previstas para 2026. Queremos criar malhas funcionais, sustentáveis e adaptáveis aos diversos segmentos e à vida do consumidor final. Um polo que serve para jogar Ténis pode acompanhar o trabalho ou um evento especial, unindo função, conforto e sofisticação.

 

O texto refere “texturas neuroativas” e uma “estética bioemocional”. O que significam estes conceitos para vocês na prática? Há uma textura/estrutura nesta coleção que represente melhor esta ideia?

s texturas neuroativas e bioemocionais estão relacionadas ao que mexe com nossas emoções e atividades neurais, evocando conforto x desconforto, beleza x aversão, agradabilidade x irritabilidade. É como quando tocamos uma malha macia ou felpuda e queremos repetir o gesto, ou quando sentimos uma superfície rústica e nos sentimos incomodados. A nossa sensibilidade tátil é um grande ativador de bem-estar ou mal-estar. Cada textura ativa uma função. Por isso, é fundamental definir que sensações quero transmitir com a malha, através da escolha de fios, estruturas e acabamentos. Nesta coleção, por exemplo, penso sempre na Origen 100: a sua textura felpuda e as riscas evocam a sensação de um dia confortável na praia.

 

O conceito aponta para malhas que “respiram, moldam-se e acolhem”. Que critérios técnicos validam isto no desenvolvimento? E como transformam testes técnicos em escolhas criativas?

Em alguns casos, conseguimos isso através da estrutura: um jersey mais aberto para garantir melhor ventilação. Adicionamos elastano para melhorar a recuperação; por norma a malhas já têm uma certa elasticidade natural, mas nem sempre suficiente, e o elastano assume aqui um papel importante. A gestão da humidade é outra funcionalidade importante, conseguida através da escolha adequada dos fios. A poliamida 6.6 oferece baixa absorção e secagem rápida; o poliéster reciclado combina secagem rápida, boa durabilidade e resistência; o Lyocell proporciona toque suave, boa respirabilidade e absorção natural; o algodão une conforto, respirabilidade e resistência mecânica; o linho garante ventilação e resistência à tração; e a lã, especialmente a merino, oferece regulação térmica. Conhecer essas propriedades permite reconhecer fios com combinações inteligentes de fibras, para aumentar resistência, funcionalidade e efeitos estéticos. Embora a sustentabilidade privilegie fibras únicas, misturas bem pensadas podem ser funcionais para alguns produtos e podem ajudar a prolongar o ciclo de vida do produto, sendo também uma estratégia sustentável.

 

A coleção fala em acabamentos tecnológicos e tecnologia como aliada. Que “inovação” mais vos entusiasma hoje no design das malhas, e como garantem que ela serve o bem‑estar e não só o efeito “wow”?

Penso que o principal ponto para este “wow” é a capacidade de ser diferente, mas ao mesmo tempo reproduzível. Inovar exige ousadia, pesquisa, tempo e energia. Usar algo novo depois que todos já experimentaram mantém-nos atentos ao mercado, mas não nos torna inovadores. Reconhecer novas tecnologias de fios é parte desse caminho. Nesta coleção, por exemplo, vamos utilizar o Umorfil, que aplica tecnologia supramolecular para integrar aminoácidos peptídicos de colágeno, obtidos de resíduos alimentares (escamas de peixe recicladas) aplicados em materiais base como poliéster, viscose e nylon. Também teremos acabamentos inovadores, como o Relax CBD, com efeito calmante e relaxante, cuja utilização já vinha sendo cogitada antes da minha chegada. Estas soluções são interessantes: a primeira pela tecnologia perspicaz e viés sustentável; a segunda por trazer um componente bioativa ao têxtil, através da impregnação por microcápsulas, como proposta de bem-estar. São inovações de fornecedores que integramos à coleção. Para além disso, o objetivo é inovar de raiz. Saber que a Trimalhas oferece essa oportunidade é o que me motiva a pesquisar. Então o objetivo a cada coleção é buscar inovar, com consciência e consistência.

 

Sustainable/regenerative raw materials and circular processes appear as the basis. Qual é o papel do Design na sustentabilidade (antes mesmo da produção)? Que decisões de desenho reduzem impacto e aumentam longevidade e durabilidade?

Pensar de forma sustentável é cada vez mais natural, embora uma sustentabilidade completa ainda seja um desafio. Como designer, preciso criar malhas com utilização consciente dos recursos, ciclo de vida prolongado e descarte responsável, considerando fibra, fio, estrutura, acabamento e destino final: quanto tempo durará? Terá uma segunda ou terceira vida? É reciclável ou biodegradável? Qual o impacto ambiental? Refletir sobre tudo isso durante o processo criativo é desafiador, mas não podemos deixar que a complexidade bloqueie a criação. Ser sustentável exige trabalho: rastreabilidade, qualidade, preço e mínimos aceitáveis. E constância permite construir repertório e conhecimento sobre as matérias-primas, tornando o processo mais simples com o tempo. É nesse ponto que encontro os valores da Trimalhas: malhas estruturadas permitem desenvolver produtos conscientes, atentos aos detalhes e capazes de garantir uma sustentabilidade real.

 

A paleta de inspiração e as palavras-chave incluem confident, slow, restorative, multisensory, connection, além de tactile, human, nostalgic, natural. Se tivessem de escolher uma malha desta coleção para simbolizar SYNAPTIC, qual seria? E que sensação querem que a pessoa leve consigo quando a veste?

Escolher uma malha preferida é sempre difícil, especialmente quando penso nelas com carinho e entusiasmo. Ao mesmo tempo, surge sempre a autocrítica: o que eu poderia ter feito melhor? E isso é essencial para não nos acomodarmos, pois sempre podemos e devemos melhorar. A melhoria é um compromisso connosco e com o processo que devemos assumir diariamente. Mas para finalizar, a minha malha preferida é a Sleek 100. É uma malha com estrutura simples, mas que transmite a sensação de algo realmente bom, que inspira conforto, boas escolhas, um produto para a vida toda. É exatamente isso que gostaria que as pessoas sentissem.